quinta-feira, 4 de julho de 2019

    O  P á t i o


Quando visitava os meus avós, vinha de Aldeia Nova. Apanhava a camioneta no cruzamento de Gralhós e apeava só no Toural.
O Toural era um xaraque fronteirado pela casa do senhor Zé Maria, pelo posto da GNR que tinha o Xelro à guarda - o palácio da Justiça não existia. De frente estava a casa da Aninhas do Velho, telhada a colmo, e a capela da Santíssima Trindade. De sul estava a beática capela de S. Sebastião que eu venerava pela rusticidade do espaço e, ao lado, a casa do senhor Abel Teixeira, a quem eu pedia a bênção por simpatia do meu irmão de que era padrinho. Eu nunca tive padrinhos. A poente havia uma casa corrida onde umas senhoras e um senhor, reserva sacerdotal, se punham à janela e botavam mantilha acetinada, em dias de festa. 
Naquele tempo a Corujeira era já um Monte Sinai. Começava na praça e não era rasgado pela estrada.
Duas ou três casas lá no alto indicavam apenas que a serra era vigiada por guardas, às vezes ferozes, sacerdotes da floresta. As encostas eram arborizadas de pinheiros.
Naquele tempo não havia incêndios florestais mas também não havia bombeiros.
Quando alguma habitação expelia chama, o sino da misericórdia badalava em aflição. O povo, todo o povo (então o povo era a alma e, como dizia a minha mãe, “nós só temos uma alma”. Eu digo agora: nós somos um só povo. O povo de Barroso!), acudia com baldes cheios de água dos tanques até vergar e fazer agonizar o fogo.
De nascente erguia-se, senhorial, o edifício da Câmara - senhorial porque quem mandava era um senhor. Não havia eleições mas havia o que se chamava, tal como houve na Idade Média, um código de honra, que era um código de conduta. Não fazia o que lhe apetecia, não senhor, obedecia às leis de Deus. Ia à missa todos os domingos, isso eu via. Hoje não, há eleições sob as leis dos homens mas não há código de conduta nem de honra.
No rés-do-chão da casa senhorial havia os correios. Ao fundo, por baixo das escadas que davam ao sobrado, havia as retretes. Homens do lado esquerdo e mulheres do lado direito. Letreiro bem visível para não haver confusão. Nunca vi coisa tão imunda! Ainda hoje tenho impregnado nas narinas o cheiro a creolina com que eram desinfetadas. Que repugnância!
Se nos apertos precisávamos da sua serventia tínhamos que ir em bicos de pés e, quando servidos, puxávamos uma corrente ferrugenta e o autoclismo vazava até afogar o compartimento. Saíamos em dança saltaricada.
No andar de cima era a secretaria da Câmara, a secretaria das finanças e o tribunal. Como quem pagava os impostos e jurava em tribunal era o meu pai, nunca lá subi.
À tardinha e à noite, depois de jantar, a miudagem pousava em bando no largo térreo. 
Jogávamos ao esconde-esconde, fazíamos competições de perícia de gincanas com roda de ferro - a paixão pelas pistas de automóveis no Barroso vem daí - futebol, hóquei em campo e a bilharda. Para quem não sabe, a bilharda é mais um dos jogos populares cá do Barroso ensinado, certamente, pelos franceses invasores. No jogo entram apenas dois; um dentro do círculo e o outro fora. Ambos os jogadores têm uma espécie de raquete na mão. A bilharda é um pauzinho pequeno aguçado nos extremos. O jogador que está dentro do círculo começa. A bilharda está no chão e o jogador bate numa das pontas e fá-la saltar. Com perícia, ainda no ar, bate-a para longe. O que está fora rebate-a para dentro de um círculo menor dentro do grande círculo. Quando aí chega trocam-se as posições. 
O melhor jogador de bilharda era o Luís da Padeira, fica já dito. Ninguém o batia.
Nos dias de feira éramos despejados. Montavam tenda os feirantes e o espaço era deles. Mercadejava-se de tudo. Mas, como hoje, todos os produtos vinham da Ribeira. Os barrosões nunca tiveram jeito para o negócio de miudezas e artesãos não havia. Vendiam, sim, bois, vacas, porcos e burros e compravam de tudo conforme a necessidade e a fartura do ano.
Na feira dos Santos havia sempre um chega de bois… e paulada. Os GNR, eram uns algozes, mas respeitados pelo manejo da nogueira rija.
O Toural era um multiusos… só que mais estético.
Por trás da casa do senhor Zé Maria havia vida: morava a Dª Maria Inácia e, fraguedo dentro, o senhor Ricóca com a sua ramada de filhos. Todos eles meus amigos. 
Os meus avós moravam na casa das carpinteiras, mais abaixo. Era uma casa granítica em “L” com a fachada maior virada a poente. 
Era vedada por um muro alto. Podíamos entrar por dois lados: pelo lado sul, duas grandes portas carrais abriam no carrego da batata e do mato para as cortes e para o pátio.
Por ela entravam ainda os bois e as vacas dos proprietários para os estábulos e o Birtelo, o Braga e o Sardinha que tinham aposentadoria nos lúgubres compartimentos do fundo do pátio.
Eu nunca entrei por essa porta porque a minha mãe avisou-me de que o Birtelo tinha no quarto, debaixo de um copo, uma víbora que enfeitiçava as raparigas virgens e mordia os rapazes pequenos. Tá qu`éto, era o entravas! Entrava pela porta nascente que era alta e estreita e dava para o largo dos Cinzas, dos Teixeiras e dos Quitérios. Tinha duas abas já carunchosas que rodavam em gonzos calcinados. Para fechar, era preciso habilidade e força.
Galgava as escadas de duas pernadas bem esticadas e punha-me na varanda que dava para o saguão e serventia a todo o correr dos fogos. Dali via o tugúrio dos vizinhos de baixo e pensava: “desta já me livrei”. 
Antes de chegar à casa dos meus avós - casa, é um modo de falar - à sala, que era polivalente, onde dormiam regularmente quatro almas e, quando o meu pai se fez genro e a minha mãe já havia parido os dois filhos, passava a sete em dias de visita. As camas eram em ferro com enxergão. Ficavam encostadas à parede por economia de espaço. A preservar a intimidade, a minha avó dependurava, em cordas, liteiros que faziam de tapume, passava pela sala dos Manatas, dos Vieiras e dos Penas. A sala da Preta era a seguir à dos meus avós, lá bem encafuada no fundo da varanda.
A minha avó era uma mulher baixinha e muito franzininha. Enredava-se em pensamentos etéreos como as moscas se enredam na teia da aranha meio religião meio superstição. Sempre muito preocupada com os filhos, com os netos e até com os seus semelhantes. Tinha oração e mesinha para todas as aflições. Era uma verdadeira alquimista.
Não sabia ler nem escrever mas fazia bem contas de cabeça. 
Fotografia de Artur Pastor
As paredes, decorava-as com quadros de santos da sua devoção e, do lado de cada um, dependurava um saquinho com folhas de plantas medicinais de acordo com o poder milagreiro do santo. Era uma espécie de parceria.
No lugar mais esconso da havia, num móvel envidraçado fechado como relicário, frascos e frasquinhos que continham sementes, pós, mexerufadas e magdalião, tal como na “Botica” 
A especialidade da minha avó era ventosoterapia. Aplicava com mestria de físico as ventosas nos lombos do meu avô. As ventosas eram uma espécie de copos em vidro. Embebia algodão em álcool canforado e ignizava-o. Virava o bordo aberto sobre a parte dorida e aquilo fazia vácuo até sufocar a chama. Ficava um grande vermelhão, ficava, mas depois de besuntado com uma substância unguinosa por mão de alipta, para não infecionar, a pneumonia, se era, foi-se.
Em cada pulso, usava duas pulseiras de cobre. Isso valeu-lhe a denúncia de amiga, ao senhor arcipreste. Mas o padre, que a conhecia como uma mulher pia e temente a Deus, não a mandou queimar. Aliás, por conselho, o bondoso padre também usava pulseiras semelhantes.
Mais tarde a crendice espalhou-se por bacocos intelectuais que, por não saberem usá-las, criaram peçonha e desistiram.
Eu pensava que a minha avó era inteligente, mas ela era mais do que inteligente: tinha saber.
Ainda hoje conservo o cardápio, apócrifo, das receitas e das orações que me foi passando por avito.
O meu avô era um GNR feroz. Vestia um capote como as SS, só que azul.
Se eu cometia alguma asneira, como me aconteceu um dia em que ao chutar uma lata me ficou presa à biqueira do meu soco, era tabefe até me fazer afocinhar.
A Alice era o meu anjo da guarda. Corria em meu socorro e repreendia aquele satã. “Ò senhor Domingos, deixe lá o rapazinho!”. 
“Se o educas, tens que o alimentar”, respondia ele com aspereza. 
Dizia e fazia coisas que levavam a minha avó a perder a alma. Nessas ocasiões a minha avó dizia: “ó homem, parece que tens pauta com o demo!”. Hoje, tenho a certeza que ele fazia por não a ouvir para a não multar.
O Carlos, o meu único priminho à época, era o neto mimadinho. O pai havia partido para África. 
O menino andava triste e diarreico, definhando por não comer. A minha avó dizia que eram saudades ou mau-olhado.
O meu avô contrariava dizendo: - “com o mau olhado posso eu bem e saudades não tem que as ter, que nos tem aqui a nós”. Mas todos andavam aflitos.
Certo dia, quando jantávamos e a minha avó se levantou para ir a um outro lado, o meu avô viu o Carlos a olhar muito fixamente para o copo de vinho que o meu avô sorvia.
- Ó rapaz, queres uma pinga? E, ao mesmo tempo que oferecia, passou-lhe o copo pr`ás mãos. O Carlos bebeu até saciar.
Foram-se as saudades, foram-se os maus-olhados, e no dia seguinte brincava. Quando o meu avô saboreava a vitória a minha avó dizia meiga: “Era capaz de ser ouguiço”.
No serviço era pior. Era conhecido pelo Atilhó. Ninguém podia com ele.
As multas, passava-as com frieza e sem eufemismos de “ó valha-me Deus”. Lex dura lex sed lex.
A Alice Chica, com os irmãos Fernanda e Zé, pertenciam ao clã dos Penas, do Chico Padeiro.
Faziam parte da fratria a que junto o Vieira e a Bina, do clã dos Vieiras.
No tempo em que a Alice e a Fernanda eram meninas, não havia bolsas de estudo e, quando se tem um pai como o Chico Padeiro, o destino é ir trabalhar cedo. E foram. Foram com a mãe, uma senhora tão baixinha e franzininha como a minha avó.
Trabalhava à jeira. Tinha as mãozinhas já muito desbotadas da lixívia, muito magrinhas e com as cartilagens profundamente gretadas de esfregar roupa na pedra áspera do tanque público. Quando não lavava, passava roupa seca a ferro. Era tão aprimorada nos “festos” como só visto no altar. E esfregava os sobrados gordurosos das famílias abastadas. 
O Zé era um mensageiro: passava os telegramas. Quase sempre más notícias. 
Todos gostavam de mim e eu deles. 
Em casa da Dª. Marquinhas, a quem posso tratar por segunda avó, comia pão centeio barrado com manteiga coberta com açúcar. 
Algumas vezes, o Zé deixava-me dormir na cama dele.
Eram três joias.
A Bina e o Vieira eram mais intelectuais, mais distantes, mais reservados.
A Bina já estudava com o empenho de vir a ser professora e, foi. 
Era determinada, inteligente e muito elegante. Calçava botas de cano que lhe aumentavam o garbo.
O Vieira aprendia o ofício do pai, mas sem se afeiçoar.
Apesar de me dar “carolos”, era meu amigo: escolhia-me para guarda-redes, e isso bastava-me como sinal de companheirismo. Da nossa equipa faziam parte, ainda, o Valdemar Ricóca, o Miguel Teixeira, o João Vadinho, o Luís da Padeira e o Zé. Os adversários eram de outros bairros. Eu ia sempre à baliza. Quase todos tinham fabricado stique. Eu amanhava-me com o “trocho” de uma couve galega.
Um dia, porque levei uma bolada, caí combalido p´ro lado. O Vieira correu aflito e disse em voz apertada nas fossas nasais: “rais t´a partam, não sabias tê-la defendido com o stique?"
No dia seguinte fabricou uma máscara de lata em que abriu dois buracos e meteu-ma na cabeça. Mas, não via nada.
  Quando a minha avó adoeceu, já eu tinha feito oito anos. O Zé, a Alice e a Fernanda já trabalhavam no duro a ajudar a mãe. Fizeram-se adultos bem cedo, e eu via que tinha que me apressar também. Para quem não entende, aos quarenta anos, naquele tempo, era-se velho e aos sessenta, Deus pedia a nossa companhia. A minha avó até nem resistiu muito. Em oito dias, partiu.
Atendam, para compreenderem: não havia hospitais como há hoje; não havia Unidades de Cuidados Continuados como há hoje; não havia lares como há hoje; não havia auxiliares como há hoje; e não havia reformas como há hoje. 
Aquele tempo era de escuridão e só tínhamos o amor a iluminá-lo. Os velhos morriam em casa.
Hoje, o tempo consome o nosso amor e os velhos morrem abandonados. 
O que é que o sotaina fazia ao dinheiro que pilhava no império é que nunca ficou esclarecido!  
Nós, o povo, um povo sofrido, respirávamos porque o ar era de graça.
No tempo em que o pátio era uma aldeia, também havia estrelas no céu.
E o céu, nas noites abafadas de Verão, estava estrelado. 
Não era proibido às crianças sonharem.
Depois de termos rezado terço em casa da Dª Marquinhas ou da minha avó, eu e a Fernanda vínhamos para a varanda e, sentados na soleira da porta da cozinha da minha avó, sonhávamos.
E ninguém era capaz de impedir o nosso sonho.
Sentados, olhávamos o céu, e eu contava as estrelas. A Fernanda repreendia-me porque dizia que contar as estrelas fazia crescer os cravos. E ela já tinha que chegasse.
Medo, tinha eu das estrelas cadentes! Parecia que caíam no Toural.
A Fernanda descansava-me e dizia: “é a tua avó a caminho do Céu".
Para toda a fratria do pátio, o meu mais comovente e sincero obrigado por me terem proporcionado as mais felizes recordações.



sábado, 22 de junho de 2019



      LENDA DA CIDADE DE AGROVELHO

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Lenda, ensinou-me o professor Carlos Reis, é uma narrativa em que um facto histórico aparece transfigurado pela imaginação popular. 
Nessa narrativa, não se pretende ser objetivo.
Assim, ao reescrever esta lenda, faço-o de forma ficcional tendo por substrato cultural a “lenda da cidade de Agrovelho”.
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      Houve, em tempos que o tempo apagou da nossa memória, um povoado onde hoje está erigida a capelinha de Santo Adrião, que se chamava “Agrovelho”.
       As sepulturas antropológicas, umas escavadas na rocha outras amovíveis, são testemunho de que nesse lugarejo viveu e morreu gente. 
       Agrovelho era um povoado muito bem exposto ao sol. Solo arável e rico. As ruas eram em terra batida como as há ainda hoje nas nossas aldeias.A água era baldada dos poços e fontanários públicos, como se faz ainda hoje nas nossas aldeias. Não havia saneamento básico, como não há em muitas das nossas aldeias. 
Enquanto os pais trabalhavam os campos, as crianças, como nas nossas aldeias, brincavam junto aos logradouros das casas e não se afastavam muito delas. 
      Em frente a Agrovelho erguia-se um outeiro bem espesso de carvalhos, de castanheiros, de medronheiros, aveleiras e outras árvores e arbustos silvestres, onde eram cortadas as lenhas para os aldeãos se aquecerem nos invernos frios. 
      O outeiro era frio e sombrio. Frio sim, mas bem arejado. Ali eram pastoreados os gados caprino e asinino. Bovinos vieram mais tarde.
       Um dia, sem mais, não se sabe se foi cigano ou um conde, fez chegar ao conhecimento do rei que o melhor lugar para erguer uma fortaleza que nos defendesse dos castelhanos era precisamente o tal outeiro em frente da cidade de Agrovelho.
O rei lançou um ar apreensivo ao tesouro e decidiu: - que os topógrafos, engenheiros e arquitetos pusessem pernas ao caminho. Com eles veio uma ranchada de cabouqueiros. E para o que desse e viesse, quanto mais não fosse para mostrar a força do rei, foi destacada uma mesnada dos lados de Chaves. Não havia necessidade de vir de Leiria, dizia o rei. Eu digo Leiria como poderia dizer Viseu, Coimbra ou Santarém. A corte era itinerante. Para me tornar mais claro direi que era assim como o senhor presidente faz hoje: umas vezes a assembleia reúne em Montalegre, outras vezes reúne em Salto, outras em Venda Nova, outras vezes em Cabril, depende de onde há obra para anunciar. 
       Chegados, montaram-se tendas.
       Os técnicos começaram a trabalhar no dia seguinte. Fizeram medições daqui e dali. Tudo de cabo a rabo. Viram donde soprava o vento, fizeram desenhos e quase ficou decidida a disposição das torres.
       Passado tempos os cabouqueiros começaram a abrir valados.
       Os de Agrovelho viam, sem necessidade de binóculos, as movimentações. 
       Um dia, depois de uma reunião do concelho, foi decidido levar ao alcaide as preocupações do povoado: “que ali eram montes baldios cuja posse já vinha de tempos imemoriais e ali pastoreavam os rebanhos e cortavam lenhas os de Agrovelho”. Era a incumbência do mensageiro. Mas, com os nervos, nem soube bem explicar. (Dizia-se à boca fechada que teve medo). 
       Nem o guarda nem o alferes perceberam bem o que aquele pobre homem dizia. “Baldio”! Quero lá saber se é baldio. Tudo é do rei. E pronto!
       O homem regressou a Agrovelho e deu o recado democrático do alferes, (lá está, outro termo que chegara aos ouvidos do comandante da força pela boca de um cigano, truncado, claro). Não havia nada a fazer.
       Passados tempos vieram trabalhar na obra homens do Minho, das Beiras, do Nordeste e pasme-se, até da vizinha Galiza. 
       Os mais inclinados para a música traziam já instrumento musical, feito por “luthier”. Outros fizeram-no pessoalmente, já aqui. Cortavam um rebento de castanheiro e, certinho, ripavam-lhe a casca tenrinha saindo então um tubinho. Outros iam ao rio e cortavam varas de salgueiro ou sabugueiro. Dava o mesmo. Eram instrumentos simples; flautas, pífaros, reco-recos, etc. Os bombos e pandeiretas foram feitos aqui. Isso sabe-se. Era pelo incómodo que davam no carrego. Os galegos traziam gaitas de foles. 
A partir daí, não faltou festa. Uma alegria. As primeiras amásias vieram com os músicos. 
       Em Agrovelho, a labuta da lavoura ocupava o dia todo àquela gente. 
Os putos brincavam, mas às vezes suspendiam a brincadeira para ouvir a barulheira do martelar do ferro. À noite custava-lhes a adormecer com a excitação da música. 
Certo dia, um dos putos mais afoito desceu ao outro lado do rio, pela ponte que o senhor presidente mandou arrasar de cimento e, para lhe dar um ar moderno, mandou que lhe “botassem” por baixo um “Pórtico” em cimento (eu vi, assisti, sou testemunha viva de que parte das pedras caíram ao rio em baga), e subiu a encosta por entre a rascalhada. Quando já bem entrado na mata, ouviu uns gemidos. Não deu mais passada! Deixou-se encoberto pelo castanheiro e espreitou. Reconheceu que era uma mulher, pela saia; que estava encavalitada na cintura de um homem deitado de costas sobre as folhas secas. À distância, não via nítido. Mas dava para perceber bem os movimentos em fole das ancas da mulher que subiam e desciam com tanta intensidade como quando o ferreiro da aldeia atiçava as brasas da forja para atingir o rubro Os movimentos cresciam, frenéticos, já sem ritmo. Lembrou-se da raiva com que nicou o peão do Libório até o escachar. Pouco mais conseguiu ver porque a mulher, enconchada, deixava cair os cabelos compridos sobre a cara do homem. Viu sim, porque os olhos se lhe esbugalharam, uns braços fortes de mulher a empurrar o carvalho com toda a força.  
       Saiu dali a correr e jurou aos amigos que viu uma mulher a estrangular um homem.
      Os amigos ficaram incrédulos. Mas era lá com os do monte alegre. Eles tinham alegria, faziam bailaricos até altas horas, tinham guarda real. Que se amanhassem.
      Passaram os anos. Os ciganos acampavam agora junto às obras do castelo. Era ali que havia caldeiros para cravejar, era ali que havia paparoca, era ali que havia dinheiro. 
  Em Agrovelho, os jovens continuavam a apaixonar-se, a casar-se a fazer amor e ter muitos filhos como dantes. Todos trabalhavam.

  Em monte alegre, as obras demoram tempo de sobra. Tanto tempo que o rei morreu, o filho que lhe sucedeu morreu e até o neto já estava velho quando fecharam o recinto. 
Com as obras do castelo acabadas, melhor, quase acabadas, aquela gente deu em debandada. Aliás, se ficasse, nem sabiam como iriam viver! O rei já tinha mandado dizer que não havia dinheiro. 
       Os invernos eram longos e frios. Os casebres, mal preparados para a neve, mal aguentariam a geada de Fevereiro. A terra também não lhes dizia nada. Nada os prendia. Saíram cabouqueiros, canteiros, carpinteiros, ferreiros e ferradores, os músicos… e as mulheres de má fama foram atrás.
       Tempos depois, não muito, a cidade de Agrovelho foi assolada por uma doença gravíssima.
       As pessoas morriam de um dia para o outro. Primeiro apareciam gânglios nas axilas e logo uns bubões à flor da cútis. Era fatal. O corpo ficava negrinho. No dia seguinte havia enterro, que naquele tempo os féretros não aguardavam vinte e quatro horas. Nem podiam. O cheiro era tão intenso que ninguém aguentava). 
       Os químicos faziam sangrias, aplicavam unguentos, e nada. Chegaram a aplicar baba de lesma, por conselho de um cigano que por ali passou. Por sorte o enfermo durou mais um dia e, depois, veio a morte.
       O padre, o mais culto da cidade e o único que sabia latim, disse para quem o quis ouvir (eram todos obrigados a ouvi-lo): “esta pandemia, (pandemia!) é um castigo de Deus”. “Os jovens, e até os mais velhos, devassaram as suas almas com as mulheres da “vida” que vieram para essa maldita terra a que agora chamais monte alegre”.
       Não tardou muito, o padre estava de “pernas”. Não fora o ferrador e nem ladainha tinha tido no enterro.
Do lado de lá, os soldados do rei tiveram ordens expressas para guardar a ponte. (A tal ponte de pedra que liga as duas margens do Cávado, na portela, e que hoje está desfigurada).
“Ordens são ordens e não se discutem”. “Ninguém passa”, avisou o alcaide em nome do rei.
Um jovem casal, único casal sobrevivente, fugia da “pestilena”.
O rio, apesar de não estar comprimido pelos muros de pedra que hoje tem, ia alto.
       O rapaz bem tentou demover os guardas, argumentando que se tivesse vida e saúde iria ter filhos com fartura. “Podia o alcaide ter a certeza que contribuiria para repor a natalidade”, jurava.
       Não senhor. “Ordens são ordens e, mais nada”. “Não passam”. “Acabou”. Palavras secas, lançadas com a frieza “dum candeeiro de gelo” por quem teme perder o emprego.
       Os jovens choraram. Choraram copiosamente. Abraçaram-se como só dois amantes se sabem abraçar. 
Imploraram a Deus todo-poderoso que lhes abrisse a porta do seu reino já que a da terra estava fechada.
       Dali a pouco, um dos guardas viu os corpos ficarem moles, desfalecerem e tombarem no lajedo da ponte (lajedo esse que hoje é cimento).
Compungidos com a cena, os guardas desertaram para França. Mas antes auguraram: “Monte alegre sim, mas gente triste ficará”.
       Conta-se que o alcaide continuou a fazer festas e mais festas. Mandou vir gente de muito lado. Até um padre que sabia fazer exorcismos convenceu, ainda que com risco de ser excomungado ou cair nas malhas da inquisição. 
Monte alegre, perdeu a solidariedade e nunca mais recuperou a alegria. Falava-se à boca fechada que a culpa era do alcaide mas ninguém teve coragem em escrevê-lo; o único que sabia ler e escrever era o alcaide…  

segunda-feira, 20 de maio de 2019


Barroso foi sempre terra fria com muita neve, noutros tempos mais do que hoje.
Houve um ano em que o frio veio acompanhado de muita chuva. Tanta, que as levadas mal tinham corcamento para a suster. 
A neve veio depois e cobriu os montes e vales. Era uma brancura que feria a vista até a fazer lacrimejar. E a terra ficou sufocada.
Depois geou dias a fio, a neve ganhou uma textura dura e crocante e manteve-se por tempo demais. 
Os lobos e as raposas famintos arrostavam as capoeiras e, dos logradouros, os podengos desapareciam sem rasto. 
Dos beirais das casas pendiam estalactites de gelo grosso. A miudagem, por baixo, de boca bem aberta, desafiava-se a recolher as pingas geladas.
Das chaminés saía um fumo negro da queima de lenha húmida que aquecia as casas. 
Os agricultores aguentaram até à última farripa de feno. Não dava para aguentar mais. Havia, por isso, que poupar as batatas e o farelo para alimentar os bovinos.
Anteciparam-se as matanças, tanto mais que o tempo ia de maré. Bem salgadas e bem fumadas, as carnes não haveriam de ganhar “morrão”.
A matança do porco obedece a uma verdadeira liturgia pagã que vai desde a criação à secagem das carnes. Imolado, salga-se. Faz-se o fumeiro e fumam-se as carnes. É uma verdadeira celebração de fartura dos povos serranos.
O poder das famílias mede-se pelo número de porcos mortos.
Pelos dias seguintes à matança levam-se dádivas de carne fresca aos amigos e pobres da aldeia, em nome de uma solidariedade pan-cristã.
Por aqueles dias todas cabem à mesa; os cabaneiro, os jornaleiros, os criados e as criadas, tal é a fartura.
Afirma-se o poder da sobrevivência sobre o próximo inverno, rigoroso que seja.

Era Dezembro.
Ecoaram pela aldeia os primeiros gritos. 
Pela frequência, tornou-se assustador. 
Nas eiras, um banco comprido de madeira era a ara sacrificial improvisada.
O porco era tocado da corte - no dia anterior já não tivera refeição – devagar, para não assustar. Tralhar o sangue é que não. 
Quatro latagões da família ou de entre os amigos, que ajudavam nos trabalhos comunitários, agarravam-no com força e deitavam-no de rojo sobre o tabuão rijo um sempre ao rabo, bem enroladinho na mão cepuda, para não escapar. 
O Zé Grelo era o imolador. Experiente, de mão firme para não fazer sofrer o animal. Enfiava pelas goelas o facalhão de ponta laminada de ambos os lados, até à artéria. O sangue jorrava.
A criada aparava nervosa o sangue num alguidar e juntava vinagre para não coagular. Tudo aproveitadinho. O animal esvaía-se em minutos e os guinchos tornavam-se brandos e sufocados.
     Era jazente. Olhava-se o herói com respeito. Havia sempre alguém que dizia “este era gordo”.  
Acendiam-se os “fachucos” de palha. Queimavam-se-lhes ali mesmo as cerdas. 
Os menos queimadiços arrancavam-lhes logo as unhas. A criançada, ainda mal vestidos de andrajos, recolhiam-nas e faziam dedeiras. Entre eles encrespavam as mãos e arranhavam-se, ali mesmo, dando início a um ritual cabalístico. 
Por todo o povoado era intenso o cheiro a fumo e carne queimada.
Depois de lavado e raspado com pedra de afeição, o porco era barbeado com navalha teimosa ao escanho.
Por fim era aberto. “Se queres ver o teu corpo, abre o teu porco”.
Tripas num alguidar para serem lavadas em água corrente e bem geladinha para fazer o fumeiro. 

O almoço da matança era preparado com os miúdos linfáticos. Os órgãos sobrantes iam a vinho e alhos em alguidar bojudo.
Andava-se nisto, uma quinzena bem medida.
Entretanto, a neve e o gelo foram cedendo. 
Mas pelo rio acima foi subindo uma neblina fria e tenebrosa. 
O céu começou a ficar escuro de nuvens que anunciavam chuva farta.
Não tardou, o céu desfez-se em água. Nesta altura era como quem a vazava a cântaros. 
As casas já eram cobertas de telha cerâmica mas, apesar disso, vedavam com dificuldade.
E trovejou. Trovejou tanto que fez tremer a terra. E fez tremer as casas. E fez tremer a força do homem da montanha.
Os mais tementes recolhiam à igreja a invocar Santa Bárbara.
A igreja da Misericórdia, que tem recolhida a santa, enchia. O povo orava com fervor reforçado e houve quem sugerisse que o bondoso sacerdote rezasse a missa junto ao pedestal da santinha para melhor Ela poder ver e ouvir as preces dos crentes.
O padre ficou revoltado e disse em voz troante de indignação: - “Isso é idolatria! Adorarás um só Deus. Só há um altar. Os santos são apenas intercessores de nós junto de Deus”.
O povo, ainda azoeirado pelo ribombar do trovão, encolheu e recuou de tal modo que metade da igreja ficou vazia.
Mas fosse porque a santa intercedeu junto de Deus, fosse porque Júpiter tivesse outros afazeres no Olimpo, certo, certo é que o sol abriu.
A miudagem saiu à rua como saíram os cães e as galinhas e os bovinos puderam ir ao pasto.
Parecia tudo estar já na paz de Deus.

Um dia… melhor, uma noite em que tudo parecia estar sereninho e todos tinham já esquecido daquele dilúvio, os cães deram em ladrar. E ladravam muito.
Os homens deitaram a cabeça fora da porta mas não vislumbraram coisa que alertasse. Alguns, para sossegar os bichos, deitaram-lhes "fressura" da desmancha. Mas aí deram em uivar. Foi pior.
No dia seguinte houve muito comentário entre o mulherio por causa do uivar dos cães. 
Mas o pior foi quando correu pelo povo que foi avistada coruja nos cômoros da Corujeira.
A Corujeira é o Monte Sinai de Montalegre. É um lugar mítico e místico.
Não consta que ali tivessem sido lavrados os dez mandamentos ou qualquer regulamento camarário, mas muitos jovens ali iniciaram namoro e deram os primeiros beijos. Ali se acariciaram os primeiros pelos virgens e se fizeram juras de matrimónio.
Aliás, foi no “Areal do Pereira” que se iniciaram os primeiros rituais pagãos que, como todos sabemos hoje, vieram a desembocar na sexta feira treze. 
Já agora, cabe aqui repor a verdade; não foi o padre Fontes - “esse Satã” - que teve a ideia de lançar a “Sexta Feira Treze”. 
O padre Fontes deu expressão à ideia dos hereges e popularizou o ritual, isso é verdade. Mas não foi o da ideia. Mas uma vez que está feito, feito está. Bem haja Padre Fontes!
Quando a coruja começou a piar bem alto, já ninguém podia ignorar que havia “malino” no ar. Piava até onde não havia alcance.
O povo, por aquele tempo, ficou de atalaia em sobressalto. 
À noite, em família, rezava-se o terço por recomendação do padre. 
O pio da coruja sempre foi de mau agoiro. E aparecer agora quando já tinha sido "desinçada" havia tempos era, pelo certo, desgraça forte. E foi.
Poucos dias depois o povo acordou em sobressalto pela gritaria do “Zé Gato”: “estamos rodeados de água!” “Estamos suspensos!” “Estamos flutuar”!
Ele foi o mensageiro porque tinha o costume de, pelo dilúculo, vir “verter águas” fora da porta e, apercebendo-se de que o som do jato não lhe soava como de costume abriu os olhos ainda "ramelosos" e reparou que à volta era só água, muita água. 
Da soleira pra baixo ainda distava um bom bocado. Esteve para lhe tomar o pé mas teve medo de não ter altura.
Os vizinhos acordaram sobressaltados pensando que o “Zé Gato” tinha ensandecido de vez.
Os cães uivavam, agora desesperadamente. 
As mulheres entraram em histeria e gritavam. “Vamos morrer todos!” “Meu Deus, valei-nos!”
Algumas, no convencimento de que a morte era uma questão de pouco tempo, pediam perdão aos maridos por uma ou outra traiçãozeca.
Estava todo o mundo em pânico e abraçavam-se uns aos outros.
Os pequenitos, agarrados ao saiote da mãe, choravam em desespero.
Mas quem é que se atrevia a deitar-se à água? E pra quê!? 
“O melhor é esperar que a água se sumisse”, aconselhava o “Zé Gato”.
Nisto, ouviu-se a terra ranger. O som saía definido no timbre do derrube de um carvalho.
Deu mais um esticão e desprendeu-se mesmo.
As casas tremeram e as poucas árvores e arbustos dos quintais baloiçaram.
Os dias seguintes foram de máxima angústia. A boiar, sem onde se poderem agarrar!
O vento estava forte e acertava em cheio.
O naco de terra girava em rodopio.
Montalegre estava mesmo a flutuar e, ainda por cima, sem rumo.
Fosse como fosse, adviesse a morte ou não, havia que se fazer tudo para nos salvarmos. Não podíamos morrer sem ação. Deus não perdoaria.
E então, uma ideia luminosa do “Zé Gato”: - “Porque é que não se faz um leme?
O “Zé Zaragatas” - nasceu-lhe ali o nome não por ser conflituoso mas porque era o mais choramingas, exclamou: “e jangadeiro?”
      Aí lembrei-me do Comuna, homem de todos os ofícios, que chamou zarolho ao nosso Aedo mas teve boa imaginação ao construir a “Jangada”.  
Bom, deitou-se então um carvalho abaixo, aparou-se de galhas e prendeu-se bem preso à alheta.
A um canto, não muito longe de mim, estava um homem que passava da meia-idade - avaliava-se pelos festos da cara, ainda que disfarçado pelo fato de xadrez bem vincado. Tinha um lenço atado em volta da cabeça como os piratas. Reparei porque era bem vistoso. Era um lenço com riscas pretas e brancas. Mas não era perneta. Tinha uns vidrinhos que lhe assentavam no nariz em vez de uma pala. Via mal, pronto.
Botaram-se sortes e, depois de alguma indecisão, foi ele mesmo o eleito para a condução da “embarcação”.
     - “Ai, Nossa senhora nos acuda! Este naco de terra, não sei onde irá parar!”, Dizia por inexperiência. “Como é que se lembraram de me eleger!”? Mas logo se empinou de disfarçada coragem e disse: - “Eu sou o homem do leme”. “Eu fui o eleito”. “Para onde a barca for, ides vós comigo”.
O pessoal, aturdido, não percebeu bem. Eram tantos os nervos! Simplesmente iriámos para onde ele desse rumo à barca!
Ainda houve quem se interrogasse, a medo, se o homem tinha carta de navegação e se sabia orientar-se pelo sol e pelas estrelas.
Haveríamos de ir para onde ele fosse. Já não havia remédio.
O homem agarrou-se ao leme com todas as forças.
Enquanto o vento dava de feição, navegou à bolina.
Toda a gente sossegou de coração. O pior foi quando o vento mudou.
Batíamos aqui, torcíamos acolá mas não havia maneira de endireitar a embarcação.
Houve gritaria. 
Tanto direcionava para Chaves como para Braga.
O povo gritava indeciso.
- “Então, quereis para onde?!
Ao mesmo tempo que alertava, carregava no leme com toda a força e fazia rodopiar a barca. Ninguém se entendia.
Nesta altura viu-se abanar o castelo e alguém gritou: “Se a torre grande cai, esmaga-nos a todos”. 
- “Calçáinda” com cimento que logo lho tiro”, dizia o homem do leme. E voltava a fazer força no leme até virar a barca a favor do vento.
A barca bordejava por tudo o que era monte e rocha, mas seguia.
     As ondas formadas pelo vento eram enormes e os solavancos provocavam agora enjoo. Houve gente que já “lançava borda fora”.
Quando bateu numa rocha mais forte, viu-se cair toda a gente para o mesmo lado. Aí, eu vi(!), não a maioria. 
Mas, já estávamos a caminho de Braga. Vi, porque reparei na placa que ainda que meio submergida, dizia: “Vila da Ponte”. Já não havia outro rumo.
Lembrei-me de muitos dos meus amigos que, apanhados a dormir, não iriam ter tempo de reagir.
Certamente iriam de arrasto.
Por eles chorei, no firme convencimento de que também eles pereceriam. E eles que tanto fizeram para que o Barroso ficasse firme!
Todos éramos náufragos agora! Perdidos, mesmo! 
A barca, ou jangada, como lhe chamaria o “comuna”, seguia sem rumo.
Havia gente dentro que não perdia a esperança e fazia o que em política se chama de comício. Alguns até já discutiam pelo facebook. Odiei isso. 
Em vez de rezarem, discutiam uns com os outros e mandavam mensagens!
      - “Havemos de nos salvar!” “Há que ter esperança!” “Importa é que o povo não seja fraco!”. “Já houve melhor timoneiro, é certo, mas desta haveremos de nos salvar”! Respondiam quase em coro os embarcados.
Quando já se avistava a Venda Nova bateu forte de encontro às escolas e quase deitava a baixo o quartel da GNR. 
Eu nem queria acreditar! Parecia querer destruir tudo. Que enjoo!
De repente estava a fazer-se noite e alguém gritou: - “Estamos em Salto!”. Percebeu-se que a barca batera e recuara, rodopiou e voltou a bater, desta vez com muito estrondo. Foi de rojo e inclinou. Inclinou porque toda a gente caíra para o mesmo lado (já se sabia...)
      Eu bem tinha avisado que se quisessem ir e vir teríamos de manter a coisa equilibrada. A água é de nível. Dá pra ir e voltar. Mas não. Caíram todos, de rebolão, pró mesmo lado. Nesta altura viu-se bem visto que ficámos presos a Salto! Já não havia nada a fazer.
O homem do leme sorriu. Disso eu apercebi-me. E logo pensei para comigo: “o malandro navegou todo este tempo, com maldade sofismada. Ele já a trazia fisgada. Ele encostou propositadamente a Salto”.
A terra rangeu, agora com muito mais nitidez. O Barroso estava nitidamente partido em dois bocados. A ré ficou encalhada prás bandas da placa que dizia Salto e, ali, vi o malandro a querer saltar.
Alguém gritou: “Ei lá, o comandante é o último a abandonar o barco”! Daqui ninguém foge com vida”. 
O mal está feito. Agora, ou nos salvamos todos ou morreremos todos.
Consta que o Montalegre continua a navegar à deriva e que o jangadeiro se apressa para abandonar a nau…

sábado, 20 de abril de 2019

O BRUXO

O SAGRADO, O HOMEM E O MITO PROFANO


Barroso foi e é uma comunidade da reconquista, mas nunca o rei soube de nós.
Moisés ausentou-se uns dias e o povo de Deus refundiu o bezerro.
Na solidão das montanhas criamos os nossos mitos e recolhemos nas serras as ervas curativas para sobrevivermos. E cá estamos, duros e crentes, com Deus e com o Diabo.

A história que o meu caríssimo leitor vai ler - ou ouvir contar se for cego - é verdadeira.
Se o Barroso é uma região isolada, Aldeia Nova era uma ilha de nenhures. A família eram os animais. Os filhos e a mulher vinham depois. Os vizinhos eram “famílias inimigas”.
Eu sou testemunha e não quero praticar perjúrio. Peço por isso a Deus que me dê coragem e ao Diabo que não me enguice as mãos, porque dos factos sei eu. Contarei por isso o que vi e não mais do que vi.
Era uma tarde de setembro e fazia imenso calor.
Graça era uma jovenzinha de onze anos. Não posso dizer que era alta ou baixa, porque ainda tinha muita idade pela frente para crescer. Lembro-me é que tinha os cabelos castanhos, em caracol, a escorrer ao longo do pescoço. Os olhos eram também castanhos; isso, lembro-me porque uma vez disse-lhe que tinha os olhos lindos, da cor dos bugalhinhos com que brincávamos. Sendo uma menina de onze anos, era bonita como o são todas as meninas de onze anos.
Aldeia Nova era uma aldeia que tinha grandes campos semeados de batata de semente e de centeio (saudosos anos sessenta).
Para arrancar os batatais vinham ranchadas de homens da ribeira; de Vidago, de Vila Pouca de Aguiar, de Valpaços e outros lados. Para cada dois homens arrancadores, uma mulher apanhadora. A paga não era dinheiro, não senhor; eram batatas! Das mais miudinhas, para semente. O pagamento era, por isso, em géneros - troca direta.
As refeições e as dormidas eram por conta do dono da arranca. Bom cordeiro, bom cabrito e as melhores galinhas e galos reservados para aquele tempo. O vinho era trazido da Ribeira. De Vidago. O celeiro exauria-se.
Na altura de arranca não se olhava aos gastos. Saía tudo, ou quase tudo, da casa. E tinha-se o gosto de bem receber. As dormidas eram improvisadas no palheiro, bem almofadadas de palha, homens a um canto e mulheres a outro. Nada de misturas. Pelo menos eu assim pensava. Andávamos nisto, cada lavrador uma boa quinzena.

Os campos nem eram longe nem perto; não dava era para vir almoçar a casa. Seria uma perda de tempo precioso. Por isso aguardavam o almoço no campo. 
Era à cabeça da mulher (sempre a mulher “que aguentava bem de coluna”) ou nos alforges do burro que todo o carrego se transpunha.
O jantar, às vezes já de escuro, era em casa. Aligeirado. O bailarico a seguir. Havia sempre quem viesse munido de realejo e concertina.

A mãe da Graça carregou nos alforges o almoço e encomendou-lhe levá-lo aos homens.
Para cómodo, montou-a no jerico: fez-se ao caminho.
As casas foram ficando para trás. O caminho encurtava e alongava à medida que subia e descia os cerros. Estes pareciam gigantes adormecidos. À volta, a passarada chilreava em graçolas de voo. A miúda caminhava numa distração pueril. 
No fundo do vale, a meio do caminho, depois de um ou outro tropeção nas pedras da vereda, havia um regueiro atravessado por três ou quatro carvalhos que uniam as margens. Por cima, uns torrões.
Era preciso passar. O animal topou a fragilidade do passadiço e estancou.
A miúda incentivou-o com palavras meigas mas… nada.
Bem, não passa pelo passadiço, passa pelo regueiro que não vai fundo, pensou ela. Era o passavas! O burro viu a sombra e assustou-se. A Graça viu no espelho de água a imagem do burro e assombrou-se.

É claro que “burro” é tão só a substância, nada da qualidade que lhe atribuímos.
O burro é um animal dócil e sempre pronto para qualquer trabalho. É “malino” sim, quando o espancam. Nessas alturas, podendo botar o dente, não larga. O “Bitro” viu nisso uma doença - a birra. Ele sabia muito mais do que eu sobre as qualidades do burro. 
Eu tenho-o na conta de um animal inteligente. As coisas da política também já mudaram muito, é certo.

Passa não passa, estiveram nisto um bom bocado.
A miúda ficou aflita com as horas. Trinta homens à espera, era obra.
Incentivou com doçura o animal e tocou-o por uma alcântara mais abaixo. Pegou-lhe pela “cabeçada” e ia-lhe dando palavras de ânimo. “Anda burrinho, anda por aqui. Primeiro do que tu, afogo-me eu. Não tenhas medo”. E passou.
A outra metade do percurso passou-o a magicar no que havia sucedido e no monstro que viu na água. E no chocalhar das fontes donde levantavam voo os passarinhos.
Quando chegou com o almoço, ainda o sol batia a pique e agora muito mais intenso. 
O pessoal já reclamava com o ratinho do estômago. 
Apaziguaram-se as reclamações com os pedaços de cabrito bem temperado com o molho do guisado. O vinhito fez o resto. 
Quem não comeu nada foi a Graça. Ficava-lhe atolado na garganta. O pai ainda lhe disse que bebesse uma pinga que escorria melhor. Ao contrário, empalideceu ali mesmo. Toda a gente reparou.

No fim do almoço devolveu-se aos alforges a loiça suja e fez-se ao caminho de volta.
O calor ainda não abrandara. E a miúda ia com uma secura na garganta que mal a deixava respirar.
Sentia uma forte pressão no peito e nas têmporas e uma tristeza que a fazia desfalecer. Rezou a todos os santos da sua devoção para aguentar até casa.
Quando chegou não deu mais. Caiu a espumar e a estrebuchar por todo o corpo. Até os olhos se lhe reviraram em branco.
A mãe da jovenzinha gritou por auxílio; eu e minha mãe, que morávamos por perto, acudimos.
A Gracinha estava numa lástima. Deitada no chão térreo, os cabelos enxaguados de lama, suava em bica. Levantamo-la. Peguei-lhe pelas perninhas e, lembro-me ainda, a mãe dela e a minha mãe pegaram-lhe pelos ombros. A cabeça descaída, como morta. Era levezinha, coitadinha… 
Deitamo-la sobre o enxergão de palha e a mãe cobriu-a com os liteiros - os “papas” eram um luxo.
Eu fiquei de morrer. A Gracinha, tão terna e bondosa, ali prostrada! Deixai que vos lembre: eu tinha-lhe elogiado os olhos luzidios como os bugalhos, não foi? Isso mesmo, porque eu adorava aquela menina.
Nas noites de inverno, à luz da candeia, mãe e filha vinham para casa dos meus pais fazer serão. 
À lareira, contavam histórias de bruxos e bruxedos; de diabos e diabretes que encarnavam cabras e cabritos, cães e gatos, só para ver as partes púbicas farfalheiras das raparigas e - pasme-se! - Também das mulheres casadas. O que é o diabo!
Durante o serão, faziam malha de carpins. Ela dizia-me em segredo de ouvido: “quando casarmos já temos meias!” e eu ficava contente e sorria.
Minha mãe era muito severa para comigo: “Jorge, vai lavar a loiça!”. Já viram…? A humilhação que eu sofria perante quem me via como o seu “home” e prometia fazer meias para o casamento?!
A Gracinha levantava-se, chegava-se a mim com muita ternura e dizia: “eu lavo a loiça”.
Minha mãe, atenta, interrompia a “segredagem”: - “não, Graça, quem lava a loiça é o Jorge; Nunca se sabe quando dá com uma mulher que não pode ou não sabe lavar a loiça. O mais que te admito é tu limpares. Ele lava, para aprender”. Vejam bem! Na verdade a minha mãe sempre me ensinou a fazer todos os trabalhos da lide da casa, na convicção de que as tarefas domésticas haviam de ser divididas por dois.

O pai da Gracinha chegou entretanto, como chegaram os homens da ranchada da arranca.
A miúda não tinha dado ainda acordo e continuava prostrada.
O pai retesou em espanto.
No dia seguinte decidiram chamar o doutor da colónia, o Dr. Américo.
Chegou no seu doutoral “Volkswagen”. Entrou e examinou, com uma rodinha de metal ligada aos ouvidos, a paciente. O que diagnosticou, nunca saberemos. Sei é que torceu o nariz, isso vi eu. No fim escrevinhou uma receita que os pais, sem perceberem, vieram aviar na farmácia Canedo. Por simpatia de família, que o médico pouco se importaria. Eram umas injeções. Comprimidos exigiam água…
Minha mãe, enfermeira amadora, ministrou-lhe, sem dor, as injeções. Contra a vontade, diga-se, porque a minha mãe sempre disse que aquilo não era coisa para médico.
Findo o tratamento da receita, haviam passado mais de oito dias, e… nada. Continuava a paciente como antes.
Prostrada, sem comer e sem beber quase nada.
- “Assim não pode continuar” - disse o pai.
- “Isto não é doença de doutor, senhor António” - insistiu minha mãe.
O dinheiro não abundava. Era preciso fazer contas à vida.
- “Vende-se a bezerra” - disse a mãe da rapariguinha.
Telefonou-se ao bruxo de Águas Santas, em Vilarinho da Samardã. Merecia crédito porque constava que era primo do arcipreste da Vila.
Primeiro, disse que não podia ir. Insistiu-se com súplica de mãe e apareceu num táxi no dia e hora combinados.
Era um homem alto, mal-amanhado de corpo e ainda por cima cego de uma vista. Eu vi-o. Pareceu-me assustador. 
Os pais da Gracinha receberam-no com deferência de doutor.
- “Onde está a criatura?” 
- “A Menina?” - disse a mãe. “Está, aqui, no quarto”. E conduzi-o ao leito.
O homem não levava instrumento, que eu visse. Não levava mesinha, que exibisse.
Disse aos da casa: “Tudo lá pra fora, não quero cá ninguém”. Saímos todos.

Passou meia hora e a minha angústia foi do tamanho da sombra da casa. 
Quem me ajudaria a lavar a loiça? Quem me ajudaria a varrer aquela maldita cozinha tão grande!

Ao fim de algum tempo chamou os pais da Gracinha e disse-lhes: “o que esta miúda tem é fome e sede!”.
Os pais correram ao quarto e quando a viram a filhinha sentada na cama, choraram.
Quando ia visitá-la via-lhe um cadeadozinho muito pequenino suspenso do pescoço por um fio de prata.
Eu perguntava-lhe para que era aquele aloquete.
Sempre me disse que foi o homem cego que lho pôs ao pescoço e lhe recomendou que nunca o tirasse para que não se lhe voltasse a abrir o corpo.
A chave, também muito pequenina, dizia, numa voz meiguinha, que era para abrir e fechar o meu coração.

Passaram todos estes anos e, agora que recordo com toda a ternura aquela menina, vejo Aldeia Nova como símbolo do isolamento e da sobrevivência das gentes do Barroso.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ALDEIA NOVA

        Quando o meu pai se transferiu para Aldeia Nova já eu era nascido. 
Muito antes, Deus tinha já feito o Sol e as estrelas, os dias e as noites. A Aldeia Nova não. Essa, foi o Estado Novo.
As casas todas iguaizinhas de arquitetura acapelada eram amplas, com quartos térreos e sobradados servidos por uma escada que dava passagem para o palheiro. A entrada da casa era coberta e formava o “combarro”. Do lado esquerdo estavam as pocilgas e antes das cortes dos bovinos havia dois silos. O forno ficava por baixo da grande chaminé. Não era grande mas dava para cozer seis pães.
No cimo da aldeia, bem lá no cimo como a cuidar de todos, havia a igreja cujo padroeiro era Santo Isidro.
Os rendeiros eram jovens famílias a ver crescer a filharada. Esses não foram feitos por Deus: foram os homens, por necessidade de braços para o trabalho.
O espaço era um Paraíso. Mas a mulher, tal qual como no “ancien régime” bíblico, pertencia ao homem - como todos os animais domésticos. 
As crianças andavam descalças e cobriam a cabeça com uma gorra espanhola. Atavam as calças
na cintura com um cinto ou uma “baraça”. Por baixo vestiam ceroulas - cuecas, era acessório
desconhecido - que desempenhava as funções de forro das calças. De frente e de trás tinham “pertinhola”, “prás pressas”, claro, mas era um perigo. Por causa dessa abertura é que o João ficou sem um “cibo” de pila.“Estava ele na soleira da porta da cozinha. Por perto, andava uma galinha atrevida a bicar os restos de comida do cão. Mirou, cobiçou e, quando ao alcance duma esticadela de pescoço… zás! Uma bicada na grila. Fanou-lhe a ponta do assobio. O João chorou com a dor, sem se aperceber de que aquele pedaço lhe poderia vir a fazer falta. A mãe lavou a ferida com água fria e, tempos depois, esqueceu”. 
Miseravelmente, eu tinha que andar de sandálias. A minha blusa era de algodão vermelho e cobria-me os suspensórios. A tapar a cabeça tinha um boné de pala. Aprecie-se o ridículo! Gozado até à humilhação pelos amigos “boina negra”.

  Ainda assim eu era uma criança feliz como eramos todos naquela aldeia. Brincava com os meus amigos por tudo o que era sítio. Com eles aprendi a reconhecer os cogumelos e os “níscaros” de todas as qualidades; aprendi a saborear os quartos das rãs que pescávamos nos regatos e nos charcos. E aprendi até como se dava com um ninho. Os ovinhos! Que bonitos! Nunca mexer, ensinaram-me, para não enjeitar!

Os homens da aldeia eram todos agricultores. Uns tinham bois, outros tinham vacas, mas todos, tinham porcos e um burro. Cavalos e machos não havia. Todos eram úteis no amanho dos campos.
As casas ficavam guardadas por um podengo que, em cada casa sua raça, estava preso por uma corrente num espeto de madeira, frente à porta, no logradouro.
Às quintas, era dia de catequese. Depois da catequese, esperávamos que a catequista desaparecesse no fundo das escadas e armávamos bailarico no adro da igreja.
O Tino era o único que sabia tocar realejo. E tinha a destreza de tocar e dançar. Todas as miúdas queriam dançar com o tocador. Que inveja! Dali em diante não me saía da cabeça que havia de aprender a tocar qualquer instrumento. E aprendi! Mas a sorte não virou.
Às vezes, o meu pai ficava de plantão. Cabia-me a mim levar-lhe o almoço, devidamente acomodado, com carinho, pela minha mãe.
Um dia, de regresso a casa, saí do trilho que me havia sido recomendado pela minha mãe. As pernas se me tivessem partido! Ou tivesse eu cegado!
Meti por entre o casario granítico. Ao virar pouco mais ou menos entre a casa do Lano e do Serafim, desci às casas paralelas até à estrada do fundo. Vi e ouvi um homem que discutia acesamente com a mulher, não pela altura da voz mas pela agressividade dos gestos. Ambos eram jovens, de pouco mais de trinta anos. Sei-o agora, que a neve caiu em abundância sobre a minha cabeça, e eu não me considero velho. Ela gemia num choro abafado entre as mãos… meu Deus como ainda estremeço! O homem, num repente de fúria, tirou um estadulho do carro de bois que havia ali por perto e bateu-lhe, com tanta cólera que a fez prostrar. Ela levantou-se, lenta, magoada e ele voltou a bater-lhe uma e outra vez com o pau. Com tanta violência que a fez cair novamente de bruços, em terra. E bateu-lhe, uma outra vez, já ela estava caída em terra. Depois, virou a esquina e tocou os animais para o lameiro.
Condoído, aproximei-me da mulher e perguntei-lhe se precisava de ajuda. Ela levantou, a custo, a cabeça destruída e com voz trémula disse que não. O Jacinto, único filho, apareceu do dobrar da esquina. Vinha ainda em ceroulas e de tronco nu. Os “moncos”, espessos, desciam das narinas como duas velas acesas em honra do sagrado coração de Maria, a mãe de Jesus. Chorava. Chorava muito. Abraçou a mãe como Maria foi abraçada pelo filho. As lágrimas misturaram-se, de piedade um pelo outro. Aproximei-me e disse que iria dizer ao meu pai - o meu pai era Guarda e sempre haveria de poder fazer alguma coisa, pensava eu na minha inocência.
A mulher, “farripada”, afastou os cabelos molhados e sujos de terra e disse, com voz meiga e doce: “não Jorginho (o que eu me arreliava com o diminutivo) e para onde vou, depois?”
Meu Deus! Agora, à distância, vejo que aquela pobre mulher estava presa à estaca, como o cão. Que fatalismo!
O Jacinto, depois que a mãe faleceu, recolheu-se na ordem dos Combonianos e é missionário em África. Isso, soube-o mais tarde.
Nos dias de semana, a escola enchia. A professora era regente. Logo de manhã, antes das aulas, “matava o bicho” na loja do Freitas com um bom copo de aguardente. Desinfetava, alegava. 
Todos fizemos a quarta classe… ou quase todos e, no final do ano, em romaria, com o diploma prometido, oferecemos à professora um ramo composto de ovos, laranjadas, nozes e figos secos e com mais não me lembro. Andámos pela rua abaixo e acima em procissão, a cantar. Lembro-me de que fiquei feliz. E a professora agradeceu, também feliz. Com pouco se agrada, com pouco se desagrada.
Todos tínhamos namorada. Recordo-me de que a minha se chamava Geninha e o namoro já ia avançado. Fazíamos casinhas com os ramos de pinheiro e prometíamos que haveríamos de ter muitos filhos.

Naquele tempo, muito tempo antes de os homens quererem ajustar contas com a história reivindicando de volta os baldios, estava o Senhor Libório sentado numa pedra apeanhada, no cômoro da estrada que liga os Pisões ao Barracão.
Dali, via-se uma lonjura entre as Alturas e o Ourigo.
O olhar do homem ondulava numa aparente nudez de ideias.
Na estrada os “euclides” - os "euclides" eram majestosos camiões - carregavam megalitos que despejavam nas margens da albufeira. Iam e vinham, agora mais leves.
A tarde era quente como o são as tardes de verão cá no Barroso. A nuvem de pó arrancada das rodas do monstro, subia pelas narinas e deixava um sarro de poeira.
Eu apareci, vindo de trazer, mais uma vez, o almoço ao meu paizinho - nunca me foi permitido tratar o pai, por “pai”. Era paizinho. Os meus amigos gozavam com a dilatação da palavra: Pai…zinho! Mãe…zinha! Pai, e chega. Mãe, e basta. Eu sabia que eles tinham razão mas, que podia eu fazer?
- "Olá Jorgito! - lá estava sempre o mesmo diminutivo a humilhar-me - Que andas a fazer?" Não respondi. Nem o homem estava à espera de resposta.
O homem continuou embrulhado em pensamentos que eu não perscrutava. Só me sentei, porque ele é que era o pai da minha namorada, a Geninha. Havia, por isso, que ser afável com o putativo sogro.
Sentei-me nas ervas mais secas e ele lançou, sem que eu lhe perguntasse nada:
- "Sabes, as aldeias nascem, crescem e morrem… como a gente".
Eu, olhei de baixo para cima com ar de quem nada entendia. Ele continuou: - "Estás a ver além, Morgade, Negrões, Vilarinho de Negrões e, deste lado, Travassos e Penedones?" - Falava como se olhasse para além do tempo! como se tudo fosse um vazio! - "São aldeias que estão mortas! Alagaram-lhes as terras. E as pessoas partiram; uns, para França, outros para a América, outros prá Ribeira… sei lá para que mais sítios! As aldeias não vivem sem terras, nem sem gente que as trabalhe." 
  Este vale era uma tulha, dava-se aqui de tudo. Batatas, eram como seixos. Segado o centeio e o milho, carregavam os carros que eram precisas duas “jugadas” para os levar às medas. E ainda ficava muita espiga que fartava a passarada. Os animais pastavam sem extrema.
Enquanto o homem falava, eu fazia círculos e outras figuras geométricas na terra com um pauzinho seco que tinha na mão e pensava na Geninha.
- "Sabes - nesta altura fui ao encontro dos seus olhos, que ele limpava com um lenço mais do que encardido - Aldeia Nova nasceu e está a crescer. Tem muitas terras e muita água. Já Criande, nem a deixaram crescer. Abafaram-na, estrangularam-na logo à nascença".

"O Estado - ainda, hoje, mal sei o que é o Estado, quanto mais com nove anos - põe e dispõe da vida das pessoas, do povo." (Ora, aqui está outro palavrão que eu, não entendia: o Povo! O povo, era eu e os meus pais e os meus amigos da aldeia e, quanto muito, a minha querida Geninha) Os governantes - agora, embora com difuso conceito, percebi porque o meu pai chamava governanta à minha mãe - que eu nem sei quem são esses homens - e, continuava a debulhar o pensamento - haviam de ter uma ramada de filhos para sustentar, que eu queria vê-los! E continuou: "Dizem que a barragem vai produzir muita luz… e nós? Ainda temos e teremos candeia por muito tempo." 
Aqui, contrariei, com vaidade, a afirmação. 
"O meu pai comprou um petromax para a cozinha". E era verdade. O meu pai havia comprado, por aquele tempo, um petromax ao senhor Duarte de S. Vicente que enchia de luz toda a cozinha.
O senhor Libório talvez nem me tivesse ouvido, porque sentenciou: - "Se as barragens são um bem, então barroso tem de sobra e já estamos ricos; se as barragens são um mal, então que distribua esse mal por outros lados."
Lembro-me que chegou o Miguel. O Miguel era um rapaz um pouco mais velho do que eu. Cabelo escuro, nariz seguido e de altura não mais do que a minha. Vestia diferente de todos nós. Calça de terylene escura, camisa branca e, ao contrário de todos, bem calçado de sapatos e bem cinturado de couro.
Eu gostava dele, porque íamos todos os domingos à missa e, embora ele estudasse no seminário, deixava-me ajudar à eucaristia celebrada pelo Reverendo Padre Calvão. Quem tocava a campainha no ofertório, era ele. Eu, nunca encarrilhei com os tempos.
Saímos juntos. Fomos jogar a bola.

Hoje, que vou diariamente à barragem e por hábito me sento num rochedo bem sobranceiro à água, olho à distância, absorto, e ouço aquele homem a dizer: “as aldeias daquele lado… e deste… estão mortas, definhadas”.
Aprendi, na cadeira de economia, que a riqueza de um povo está na sabedoria de criar necessidades ou satisfazer necessidades. Eu explico: se um seixo, um simples seixo, constituir uma necessidade para as pessoas ou fizermos crer que esse seixo tem virtudes, será disputado por uma enormidade de gente e, quem tiver seixos, estará rico. A sabedoria está em saber incutir e satisfazer necessidades nas pessoas. 

A água é ouro líquido.

As zonas ribeirinhas sempre foram descuidadas pelo poder autárquico. Nunca se embelezaram as aldeias e nunca se cuidou das partes livres da água, quando vem o estio. O lixo, amontoa-se e o aproveitamento turístico das suas margens é medíocre.
Mas, contava eu que, sentado do alto do rochedo, via e vejo as aldeias do outro lado e as do lado de cá. À minha frente, uma grande extensão de água. Água que é uma verdadeira riqueza; a necessidade da humanidade é e será, cada vez mais, a água. Não é preciso imaginação para criar necessidade porque ela existe naturalmente. E, o que vemos? 
Vemos que o executivo do Município de Montalegre entrega, por tuta e meia, todas as infraestruturas subterrâneas, a captação, venda e distribuição dessa água a uma empresa multimunicipal SA. que não provou nem nunca há de provar outra coisa que não seja ser um ninho de diretores, subdiretores, gestores e outros quadros recrutados nos partidos, que servirá tão só interesses dos municípios mais poderosos em ações e que nos irá cobrar o m/3 de água ainda mais caro.
Mais, ainda não iniciou o fornecimento e já lhe devemos dois milhões e quinhentos mil euros.
Que pouca sorte ter nascido neste reino maravilhoso!

As populações ribeirinhas nem estrebucham. Que pena!
Às vezes parece-me que somos uma região desenvolvida e que podemos viver dos rendimentos. Tal como faz qualquer herdeiro de fortuna que, vendo tanta riqueza, pensa que não precisa mais de trabalhar e dá em dissipar o património, sem pensar no futuro. Só porque não quer ter “chatices”. Os filhos, (os filhos serão, nesta história, as gerações futuras) se os houver, logo se desenrascarão.
Estava eu a cogitar estes pensamentos, quando fui aturdido pela recordação do meu amigo Miguel. 
Já vos contei que o Miguel estudava para padre, é verdade. Estava já no terceiro ano e constava que era bom aluno.
Certo domingo, estávamos todos na missa e, porque chegou tarde, foi para o lugar das mulheres, com a mãe - o “mariconso!” - com a mãe! (Explica-se, aqui, que as mulheres, naquele tempo, não se misturavam com os homens. Tinham um lugar próprio - mulheres do lado direito, homens do lado esquerdo, no sentido do altar). Pelo menos na Aldeia Nova era assim. E elas cobriam a cabeça com um véu. O véu das mulheres solteiras era branco, o das casadas era preto. Porquê, nunca soube e, ainda hoje, não sei. Li e reli a bíblia, e em lado nenhum, Jesus, o Cristo, diz expressamente ou deixa subentendido que as mulheres e os homens deverão ficar separados e que elas se deviam cobrir com um véu.
A verdade é que, também em lado nenhum, a Constituição da República diz que as oposições devem ser segregadas e os cidadãos ignorados, não esclarecidos e, até, enganados e isso acontece. Bom, melhor será não fazer grande caso.
O padre Calvão, não era padre para desperdiçar o pão de Cristo e, antes de consagrar, ordenava à eclésia: “quem está para comungar, levante a mão”. Disso, sou testemunha. 
Entre o mulherio, o Miguel ficou encoberto.
O padre Calvão consumiu a hóstia e devolveu o cibório ao sacrário.
O seminarista ficou em depressão. Chorou, chorou como só Madalena chorou aos pés de Jesus.
A mãe, para o consolar, rematou: - “Cala-te rapaz, que há mais domingos. No próximo, comungas duas vezes!” Pronto. O rapaz estancou com o sacrilégio.
Acabado o Natal, já estava de volta a Singeverga.
Mas, se mais depressa tem ido, mais depressa tinha vindo. O Miguel estava saído do seminário. O que se passou dentro de portas, nunca ninguém soube.
Soube-se é que, depois, foi enfeitiçado por uma rapariga de Travassos, bem mais velha do que ele, que o iniciou nas delícias do amor. 
A luxúria dos favores era paga em fumeiro que roubava dos lareiros, à mãe.
Esta, desesperada, dizia, a quem a queria ouvir, que aquilo era bruxedo.
O padre Calvão, que era um santo, elucidou a mãe que aquilo era talvez fruto da revolta da clausura que sofreu no seminário.
"E o sapo, senhor padre!? E, o sapo!… Eu, vi-o com estes olhinhos, no logradouro da minha casa". 

    O  P á t i o Quando visitava os meus avós, vinha de Aldeia Nova. Apanhava a camioneta no cruzamento de Gralhós e apeava só no Tour...